O Milagre do Dedo Podre

Fábio ficou anos desejando comprar um notebook, e quando finalmente conseguiu juntar dinheiro suficiente para a aquisição, passou mais dois meses pesquisando marca, modelo, e as configurações que se adequariam perfeitamente ao seu estilo de vida. Quando finalmente encontrou seu par perfeito, Fábio desembolsou a grana e o levou para casa.

Mas eles não foram felizes para sempre. Em poucas semanas de uso, seu notebook apresentou problemas. Desesperado, Fábio entrou em contato com o fabricante para pedir reparo ou algum tipo de ressarcimento.

- Não se preocupe senhor, é mesmo um defeito de fábrica. Algumas máquinas desse modelo apresentaram o mesmo problema. É só trocar uma pecinha, e tudo volta ao normal. Daqui a duas semanas o seu notebook estará novinho em folha. – acalmou-o o técnico da manutenção.

Um pouco mais tranqüilo, Fábio pegou o caminho de volta para casa deixando seus pensamentos vagarem sem controle. Sentindo-se um azarento da pior espécie, Fábio culpou o seu próprio dedo, chamando-o de podre. “Aposto que se fosse outro qualquer, não teria dado defeito!”. Certo de que tinha plena razão sobre o mal-agouro que o cercava desde criança, decidiu fazer um teste consigo mesmo.

Fábio entrou em uma livraria logo na esquina, referencial de boa literatura, ótimas lojas, atendimento impecável, e de belos funcionários. Não era bem a intenção de Fábio comprar um livro, ele não era bem o tipo de pessoa que curtia ler alguma coisa, mas ele compraria a loja inteira se fosse preciso. Andando entre as estantes e mesas abarrotadas de livro, Fábio viu no canto da loja uma jovem muito bonita. Seus cabelos curtos emoldurando o rosto corado.

- Oi. Então… Marina. – preso em seu peito o crachá denunciava seu nome – Eu queria comprar um livro. O que você tem para me recomendar?

- Qual tipo de literatura o senhor prefere?

- Para ser sincero, nunca fui muito de ler, queria começar a criar esse hábito, então, estou aberto à sugestões. – Fábio abriu um sorriso largo e cativante, na esperança de que conseguisse provar que não tinha sorte nesse mundo.

Seu intento, na realidade, era provar que as coisas sempre davam errado para ele quando dependiam de sua escolha. Fábio estava certo que poderia escolher a mulher mais perfeita da face da Terra que mesmo assim, seria um relacionamento fadado ao fracasso.

- Nós temos um acervo muito bom de clássicos da literatura mundial. Estaria interessado em ver?

- Claro, porque não?

Fábio acompanhou a jovem por corredores coloridos, abarrotados de livros. Tentando chamar sua atenção, fez brincadeiras para fazê-la rir de seu jeitão abobalhado.

- Esse aqui eu mesma li, umas dez vezes no mínimo. É ótimo. Acredito que você vá gostar. – Marina lhe passou um livro grande e pesado, devia ter no mínimo umas seiscentas páginas. Mas Fábio realmente se interessou pela história enquanto Marina a resumia.

- Se eu levar o livro, eu ganho um brinde? – perguntou ele. Mas Marina não entendeu a brincadeira, então continuou – Se eu comprar o livro, ganho seu telefone?

Marina riu sem graça, mas tomou outra atitude.

- Meu horário de almoço é daqui a pouco. Aceita tomar um café comigo? E ai, quem sabe, não lhe dou meu telefone?

A conversa seguiu animada, e um café só não fora suficiente. Depois dele veio os sucos, os salgados e as fatias de torta. Ao se despedir, Marina entregou-lhe seu cartão de visitas, com seu telefone.

- Este aqui é o seu brinde por ter comprado o livro. E esse aqui é por mim. – Marina então se aproximou devagar, sorrindo de uma forma encantadora e lhe roubou um beijo. Logo depois, se despediu com um aceno de mão, um sorriso tímido nos lábios e virou as costas para voltar ao trabalho

Fábio só faltou comemorar no meio da rua, e intimamente agradeceu ao seu dedo podre por ter funcionado tão brilhantemente ao escolher uma máquina com defeito. Se não fosse por ele, jamais teria conhecido aquela garota tão incrível.

Para quem nunca acreditou naquela famosa frase “Há males que vem pra bem”, Fábio queria mais é que eventos como esse se repetissem.

- Que venham os gatos pretos, as escadas e os espelhos quebrados!

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