Falsas Economias

Era sábado a noite, não havia nada que prestasse na televisão e muito menos comida na geladeira, quando Inês resolveu fazer cachorro-quente para sua família. Entretanto, lhe faltava pão e refrigerante.

Decidida pelo lanche rápido, mandou seu marido e filho mais velho irem comprar os dois itens que lhe faltavam na rua enquanto preparava as salsichas. Meio a contragosto, Diego saiu com seu padrasto imaginando que comprariam tudo na padaria ao lado de casa, mas não se surpreendeu quando ele tomou o caminho contrário em direção ao supermercado à dois quarteirões de distância. Ele, mais do que ninguém, sabia da fama de mão-de-vaca do padrasto. Em inúmeras ocasiões havia passado vergonha ao verificar a mesquinharia à que ele se dava ao trabalho. Como no dia em que escolheu pelo óleo de cozinha mais chinfrim do mercado por apenas um centavo de diferença, mesmo tendo Diego lhe lembrado que seria um centavo que sequer receberia de troco.

Logo que chegaram ao supermercado, pegaram aquilo que foram comprar e se direcionaram ao caixa rápido. Enquanto esperavam na fila, Meireles, o padrasto de Diego, viu um cartaz do supermercado que anunciava um desconto de três centavos nas mercadorias que fossem levadas sem o uso das sacolas plásticas. Empolgado com a economia, logo que chegou ao caixa, Meireles anunciou sua vontade de receber o desconto.

- Senhor, o desconto só é válido para compras acima de cinco itens. – alertou a moça do caixa ao passar a garrafa de dois litros de refrigerante e o saco de pães para serem computados pela máquina.

Meireles não ficou satisfeito com a notícia, mas não se deixaria dar por vencido tão facilmente. Intimamente, ele desejava aquele desconto.

- Não seja por isso! – disse Meireles se direcionando ao início do caixa para pegar três pacotes de chicletes, cada um custando R$ 0,98 – Agora você vai me dar o desconto? Porque eu vou carregar na mão.

Incrédula, a moça registrou a compra dos três pacotes de chicletes ainda achando que aquilo era brincadeira, esperando que ele devolvesse os pacotinhos à prateleira e risse da cara dela. Mas isso não aconteceu.

Feliz com a própria genialidade, Meireles enfiou os chicletes no bolso, pegou a garrafa de refrigerante e deixou os pães para que Diego carregasse. Encaminhando-se para a saída, pouco contendo-se em si, iniciou sua ladainha:

“O povo brasileiro tá onde está porque não cobra seus direitos. Se todos fizessem isso, o país seria bem melhor. A gente tem que cobrar mesmo! Exigir aquilo que é nosso. Ai dela se não me desse o desconto! Eu não estava levando saco. Eu não preciso de saco! Carrego na mão mesmo…”

Diego atravessava o corredor de caixas sem nem acreditar no que tinha visto e no que estava ouvindo. Meireles havia superado qualquer expectativa fazendo o inacreditável. Que seu padrasto era chegado à economias burras, Diego já sabia, mas aquilo já havia passado de burrice há muito tempo.

Os dois continuavam caminhando em direção à saída quando Meireles parou em outro caixa em funcionamento. Uma das atendentes ensacava as compras de outro cliente.

- Ah! Me dá isso aqui! – disse, puxando duas sacolas plásticas da mão da mulher.

Descrente, Diego ainda conseguiu formular uma última frase.

- Que bom que você não mencionou o meio-ambiente… – porque além de burro e hipócrita, você também seria egoísta, pensou ele.

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