Conexões
13 set 2010 43 Comentários
em Crônicas Tags:amor, carnaval, conexões, crônica, encontros, literatura, romance, sonhos, texto, viagem
Eram 04h23min da manhã quando Vitória acordou no meio da noite, de novo. Seu coração batia forte e suas mãos suavam frio. Não fora um pesadelo que a fez despertar, era um sonho estranho, um pouco angustiante, que se repetia todas as noites, fazendo-a acordar aflita, sempre no mesmo horário.
Um homem que jamais vira, e que sequer sabia o nome, aparecia para ela, em uma noite chuvosa. Ele, do outro lado da rua, fitava-a sem disfarçar. Seu guarda-chuva preto protegendo-o do temporal que caia, enquanto Vitória estava encharcada até os ossos do outro lado da calçada.
E em todas as noites era a mesma coisa, ele parado lá, ela sentindo um frio que lhe corria pelos ossos. E era exatamente isso que a deixava aflita, em seu âmago sabia que aquele homem significava alguma coisa, mas não queria acreditar nisso. Sempre sentia uma esperança quando o via, mas se obrigava a calá-la, acreditando que ele não passava de uma materialização inconsciente do seu maior desejo: encontrar alguém.
Vitória fechou os olhos buscando o sono de volta, forçando-se a pensar em outras coisas. Em poucos minutos adormeceu devido ao cansaço que sentia, e lá não havia tempestades, nenhuma gota sequer, e isso a deixou mais calma. Mas ele permanecia ali, espreitando apenas. Velando seus sonhos.
Quando acordou, Vitória afastou os resquícios do homem de seus pensamentos enquanto se arrumava para o trabalho. Uma boa maquiagem disfarçaria as noites mal dormidas há semanas.
Ela era responsável pela organização do principal camarote VIP do carnaval do Rio de Janeiro e, portanto, deveria estar sempre bem apresentável. Inúmeras celebridades, tanto nacionais quanto internacionais já haviam confirmado presença, acabando de vez com o pouco de sanidade que lhe restava. Para sua sorte, um excelente Promoter chegaria de outro estado no dia seguinte para ajuda-la, eles trabalhariam juntos tanto nesse evento como nos que se seguissem.
Depois de mais um dia exaustivo, Vitória chegou em casa e se jogou na cama. Intimamente pediu para não sonhar aquela noite e logo em seguida adormeceu.
De fato acordou antes do que esperava, não por conta do sonho, mas porque algum maníaco a estava ligando. Eram 6h07min da manhã quando o telefone tocou, sendo que só pretendia acordar às 7h30min. Já mal humorada, atendeu ao chefe do outro lado da linha.
- Bom dia Vitória, espero não ter te acordado.
- Na realidade, acordou, mas tudo bem. Algum problema?
- Bom… Sim. Eu ia buscar seu novo companheiro de trabalho no aeroporto, mas não terei como. Estou ligando para que vá lá busca-lo. A conexão chega às 7h40min. Tem como fazer isso por mim?
- Tudo bem, eu vou. Qual o nome dele?
- É Arthur Neto… – seu chefe terminou de passar as outras informações necessárias antes de desligar.
Ela até quis voltar para a cama e dormir por mais dez minutos que fosse, mas não conseguiria pegar no sono novamente. Vitória se vestiu a contragosto e foi pro aeroporto. O mau-humor ainda lhe tomando cada pensamento.
Mas as coisas não parariam por ai.
“Lei de Murphy existe e ele não gosta de mim”. Disse Vitória ao ver no painel de pousos, justamente o único vôo que esperava, ser classificado como atrasado. Inconformada com a espera, ela pensou em todas as coisas que tinha que organizar naquele dia e sentiu ainda mais raiva. Desejou que esse tal de Arthur Neto realmente fosse bom, ele teria muito trabalho naquele dia.
Cinqüenta minutos haviam passado até que finalmente Vitória pudesse levantar e esperar junto ao saguão de desembarque. Segurava uma plaquinha, sentindo-se a pessoa mais ridícula da face da terra. Mas sem saber como ele era, não lhe restava outra opção. Logo depois viu um homem se aproximar, um sorriso enorme iluminou seu rosto.
- Arthur Neto, prazer. – apresentou-se.
- Oi. Sou Vitória Lemos, vamos trabalhar juntos. Se importa de me acompanhar? Meu chefe não pode vir, e me pediu para busca-lo. Mas temos tantas coisas para resolver hoje…
Ambos atravessaram o saguão do aeroporto a passos largos. Vitória estava lá há tanto tempo que nem viu o tempo mudar e a chuva cair torrencialmente.
Um sonho persistente invadiu sua mente, ela sentiu suas mãos suarem frio e o coração acelerar. As primeiras gotas caiam agora sobre sua cabeça…
De repente um guarda-chuva preto abriu-se sobre sua cabeça.
- Há tempos que espero por você.
Vitória olhou novamente aquele rosto antes estranho e pode enfim reconhecer o homem que todas as noites vinha ao seu encontro. Sem acreditar, ela esqueceu o trabalho, os compromissos e todo o resto.
Aquela noite, Vitória dormiu sentindo o seu perfume, enquanto se escondia em seu pescoço. Não mais sonhou com tempestades depois daquele dia.
